quinta-feira, julho 20, 2017

Pode o conceito de Cidades Inteligentes alavancar o desenvolvimento brasileiro?






Por Alexandre Barreto *


O Brasil precisa falar mais em desenvolvimento. Após passar por uma virada abrupta no rumos de sua economia, saindo de um crescimento recorde de 7,5% em 2010, o maior em relação aos 20 anos anteriores, para dois anos seguidos de retração de seu Produto Interno Bruto (1,8 milhão de empresas fecharam em 2015), não resta outra lição de casa a fazer a não ser pensar urgente na retomada do desenvolvimento. E essa não é uma tarefa simples. As cifras deste drama macroeconômico não são as únicas variáveis a serem pensadas.

Para ter uma noção do tamanho do desafio da retomada do crescimento econômico no Brasil, some aos números negativos do PIB brasileiro no biênio 2015-2016, pelo menos, os seguintes fatos: o brutal desaquecimento do mercado interno provocado por 14 milhões de desempregados, baixa confiança do consumidor, baixa confiança do empresariado, as tensões sociais e a crise política a partir das eleições de 2014, o Impeachment, os recentes escândalos e denúncias de corrupção envolvendo parlamentares e membros do novo governo (inclusive envolvendo o atual presidente), a baixa arrecadação e o alto gasto do Governo Federal, a falência financeira de muitos estados e municípios, as mazelas históricas na infraestrutura do país, o atraso na implementação de reformas (tributária, trabalhista, da Previdência, etc.), a pouca atenção dispensada à Cultura, os cortes no orçamento da educação e dos centros de pesquisa brasileiros e o crescimento avassalador da violência no país. Trata-se de um cenário distópico similar aos presentes em muitas narrativas de filmes de ficção científica.

Não bastasse tudo isso, ainda temos a questão do crescimento da população nas cidades, que também é uma preocupação global. Distribuída em 5.570 municípios, a população brasileira que já ultrapassa os 200 milhões de habitantes vê sua insatisfação aumentar dia a dia com a gestão dos problemas das cidades. De onde poderá vir uma ação para a retomada do desenvolvimento? Da União? Dos Estados? Das cidades? Segundo a ideia de “cidades inteligentes”, as cidades podem ser o ambiente protagonista de mudanças que podem contribuir para o desenvolvimento.


Mas o que são cidades inteligentes?

Segundo artigo publicado por Marco Antonio Barbosa na revista Mundo Corporativo da consultoria Deloitte, “uma cidade inteligente é aquela em que as pessoas, os serviços e os recursos estão conectados para oferecer, a partir da integração do poder público e da iniciativa privada, as condições para a qualidade de vida e o desenvolvimento de negócios”. É um conceito que promove uma mudança no modelo tradicional de gestão das cidades, pois estas podem passar a utilizar sistemas digitais de comunicação e informação como importante recurso para planejamento e gestão do transporte, escolas, segurança pública, hospitais, tratamento de água, coleta de lixo, entre outros.

Apesar de novo no Brasil, o conceito de smart city (cidade inteligente) vem sendo debatido desde 2000 por alguns países. Para se ter uma ideia deste movimento, o IESE (Instituto de Estudos Superiores da Empresa, na Espanha) pesquisa anualmente o grau de “inteligência” de 181 cidades em 80 países. No ranking de 2016, nove cidades europeias e nove cidades da América do Norte estão entre as 25 mais bem colocadas (conheça o ranking).



Entusiasmo

Boa parte do entusiasmo com a adoção do conceito de cidades inteligentes vem da movimentação financeira esperada com a implementação da nova infraestrutura para as cidades. O engenheiro Cláudio Bernardes cita em sua coluna no jornal Folha de São Paulo que a empresa de tecnologia Navigant Research prevê que o mercado das cidades inteligentes crescerá para US$ 27,5 bilhões (R$ 90,7 bilhões) em todo o mundo até 2023”. Outra parte do entusiasmo decorre das possibilidades de racionalização e economia de recursos com uma gestão mais eficiente. Um bom exemplo disso vem de Singapura, onde uma equipe de servidores analisou dados sobre internações mantidos por todos os hospitais, na busca por diminuir a pressão sobre o sistema público de saúde. Após identificar 400 pacientes com histórico de três ou mais internações e destinar a estes médicos e enfermeiros em seus domicílios, conseguiu em seis meses diminuir o número de internações e economizar 9.000 diárias de hospitais.


Cautela

É preciso cautela ao se pensar na ideia de cidades inteligentes para as cidades brasileiras. Especialistas acreditam que não é tão simples a adoção do conceito. Iara Pasian, sócia-líder da consultoria Deloitte para Infraestrutura e Setor Público fala sobre a gestão das cidades brasileiras: “antes de pensar na transformação para a cidade inteligente, nossas prefeituras têm de melhorar muito a qualidade dos serviços públicos, de maneira geral”. O urbanista Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná (1995-2002), conhecido por soluções inovadoras adotadas em Curitiba nos anos 90, acredita que mais importante que discutir tecnologia é pensar a concepão das cidades: “nem sempre a inovação é tecnológica. O que falta é a inovação na concepção das cidades. Existe hoje uma moda de falar em cidades inteligentes, smart cities, cidades competitivas e outras coisas mais. Isso muitas vezes é só "gadget", não é isso que importa. Atualmente os três grandes problemas da cidades ainda são os mesmos: mobilidade, sustentabilidade e a coexistência. (...) A cidade tem que ser uma estrutura de vida, trabalho, lazer, mobilidade, tudo junto. Toda vez que você tenta separar as pessoas - morando em um lugar, trabalhando em outro, forçando as pessoas a deslocamentos demorados e difíceis, as coisas não acontecem bem. Quando se separa a população por renda, idade, religião - tudo isso não contribui para a qualidade de vida da cidade. Precisamos trabalhar mais na concepção”.


Ações em curso

Pouco a pouco o conceito de cidades inteligentes está começando a ser discutido no Brasil. O jornal El País promoveu no Rio de Janeiro o seminário “Cidades Inteligentes – Mobilidade e Sustentabilidade”, para debater modelos colaborativos e inovação nas cidades. Em junho deste ano, São Paulo sediou a 3ª edição do Connected Smart Cities, que debateu urbanismo sustentável nas cidades, mobilidade e acessibilidade nas cidades, cidades conectadas, cidades participativas e engajadas, cidades empreendedoras cidades humanas, resilientes e inclusivas, e cidades prósperas. Rio Branco, capital do Acre, avança também nesta direção. De forma pioneira vai realizar o Hackathon Smart Cities, primeira maratona tecnológica da região da Amazônia. Serão quarenta e oito horas em que os participantes terão o desafio de desenvolver soluções inteligentes que possam ser disponibilizadas aos moradores da capital acreana. O evento acontecerá durante a Expoacre 2017, uma realização da Prefeitura de Rio Branco, SEBRAE/AC, Governo do Estado do Acre e a Startup Buscar Peças e tem a parceria da ConectBem, Casa Urbana Coworking e Uninorte


Cidadãos inteligentes 



É cedo para afirmar que a adoção do conceito de cidades inteligentes será responsável por alavancar o desenvolvimento brasileiro. Mas o fato do conceito já estar sendo discutido no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Branco e tantas outras cidades encoraja-nos a acreditar que mesmo diante de um quadro desolador, existem iniciativas sendo estruturadas na busca de se reverter o atual cenário de crise do país. E neste momento, mais importante que ter todas as respostas sobre o impacto da adoção deste novo conceito é a coragem de começar. Toda inovação é possível quando se tem coragem de começar.

Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITSrio.org) e pesquisador e representante do MIT Media Lab no Brasil, nos convida a pensar o conceito de cidades inteligentes com a inclusão de uma dimensão indispensável: a de cidadãos inteligentes: “a inteligência da cidade precisa se distribuir entre as pessoas que vivem nela. Não pode ficar centralizada atuando só de cima para baixo. Boa parte da infraestrutura para distribuir a inteligência urbana já existe: são os smartphones que carregamos no bolso”.


Assista também

O episódio "Cidades Inteligentes" da série Expresso Futuro no Canal Futura. Nele Ronaldo Lemos entrevista o CTO da cidade de Nova York, Miguel Gamino Jr, dentre outros, e conversa sobre privacidade e cidadania digital.





Leia também




El País “É compartilhando a cidade que a tornamos mais segura”


El País Um dia na vida de um trabalhador de uma cidade inteligente

Folha de São Paulo Cidades têm de refletir mudança tecnológica





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* Alexandre Barreto é administrador pela Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (EAD/UFRGS) e MBA em Gestão Cultural pela Universidade Cândido Mendes (RJ) . Empreendedor que dissemina conhecimentos e atua em redes para promover mudanças. Escreveu os livros Aprenda a Organizar um Show e Carreira Artística e Criativa
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